domingo, 21 de maio de 2017

Conferência "São livros para os meus ouvidos"


Poderão as palavras e versos das canções ser considerados poesia e literatura e serem livros para os meus ouvidos? O que leva um escritor de canções a receber o Prémio Nobel da Literatura? 

Na conferência "São livros para os meus ouvidos", inserida na iniciativa Alvalade Capital da Leitura, com o poeta Pedro Mexia e o músico Samuel Úria, moderada por Carlos Vaz Marques discutiram-se estas questões e conversou-se animadamente sobre música e literatura.



Entre os conferencistas foi unânime, o reconhecimento de Dylan como poeta e o seu impacto real na cultura e a nível individual e artístico com canções tão ambíguas que podem ter interpretações completamente distintas, conduzindo à reflexão. Foi sem dúvida um poeta que marcou e desenhou gerações inteiras e em que se incluem os dois convidados, apresentados como verdadeiros “Dylanescos”.

A polémica da atribuição do Nobel foi trazida à mesa pelo moderador Carlos Vaz Marques que atribui à suposta junção da baixa cultura à alta cultura com a intromissão de um não escritor no domínio da literatura, tida de alguma forma como superior. A questão passa pelos rótulos e compartimentos criados que muitas vezes constrangem mais do que realçam a arte e o acto de criar que combina mais com empatia do que com constrangimentos.

Para Samuel Úria poderia definir-se o que Dylan faz como uma literatura despretensiosa, embora o próprio se tenha auto-intitulado como um trabalhador da canção e não um poeta ou não fosse ele um dos expoentes máximos dos cantautores (singer-song-writer). Também o músico português não encara as suas letras como qualquer tipo de literatura nem ele próprio como aspirante a poeta. O carácter de poesia tem não só a ver com o conteúdo, beleza e profundidade do que se escreve, mas também com o alcance que as composições, as palavras juntamente com o seu invólucro musical, têm.

As letras e palavras das músicas acabam por ser “livros para os nossos ouvidos” quando estão carregadas, precisamente de poesia e conseguem valer por si só e pela sua mensagem, não ficando desabrigadas e mesmo amputadas sem a música que as envolve. No entanto, Pedro Mexia refere que em muitas ocasiões os nossos ouvidos são inundados com sucessos musicais que passam ao lado das suas letras e mensagens que acabam quase por ser aniquiladas devido à falta de significado.

Estes foram apenas alguns apontamentos desta conferência, diria antes, conversa fluída e bastante interessante sobre as ligações da música com a literatura e a importância da palavra com intervenientes de grande cultura geral que me prenderam a atenção e abriram horizontes. E com o músico na sala, esta foi coberta de música com Samuel Úria a cantar um dos seus temas.

Polémicas à parte, Bob Dylan escreve há mais de 50 anos, melhor e com mais sentido de profundidade e beleza do que milhares de livros que por aí se editam. Deixo o link de um artigo com o 7 livros e documentários de Dylan para entender melhor o Nobel da Literatura.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

O Carteiro de Pablo Neruda - BANDA SONORA + POEMAS

Este livro está cheio de música que enquadra principalmente as cenas passadas na taberna onde Mário conhece a sua amada Beatriz e onde se desenrola boa parte da narrativa. Mas também de poesia e dos poemas do próprio Pablo Neruda que são evocados.

No dia em que o carteiro vê pela primeira vez Beatriz, a rapariga mais bonita que se lembrava de ter visto, na taberna, onde tinha ido para se consolar com uma garrafa de vinho e desafiar alguém para uma partida de bonecos tocava na juke box uma música que já anunciava uma grande paixão.




«Já de longe chegou até ele o estrondo das pancadas metálicas do Wurlitzer, que arranhava mais uma vez os sulcos do Mucho amor pelo Ramblers, cuja popularidade já estava extinta há uma década na capital, mas que na pequena aldeia continuavaa ser actual»






A mãe da taberneira quando descobre a sua mudança de comportamento, apercebendo-se do seu ar enamorado acaba por evocar vários versos do poema Farwell de Neruda para justificar o perigo dos homens e das intenções das suas palavras bonitas, quase nunca inocentes.

« (...) amo o amor dos marinheiros que beijam e vão-se embora.
deixam uma promessa. não voltam nunca mais.
em cada porto uma mulher espera: os marinheiros beijam e vão-se embora.
uma noite se deitam com a morte no leito do mar.

Amo o amor que se reparte em beijos, leite e pão.
amor que pode ser eterno e pode ser fugaz.
amor que quer se libertar para tornar a amar.
amor divinizado que se aproxima. amor divinizado que vai embora.

Eu não o quero, amada.
para que nada nos amarre, que não nos una nada.
nem a palavra que aromou tua boca, nem o que não disseram as palavras.
nem a festa de amor que não tivemos, nem os teus soluços junto à janela. (...) »

Mais adiante, apanha-lhe um poema dentro do soutien, tão mas tão sugestivo Nua (Sonetos de Amor: XXVII) que a faz proibir a filha de sair de casa até que Mário desampare a loja

Nua, és tão simples como uma de tuas mãos
Nua, és tão simples como uma de tuas mãos,
lisa, terrestre, minúscula, redonda, transparente,
tens linhas de lua, caminhos de maçã,
nua, és delgada como o trigo nu.

Nua, és azul como a noite em Cuba,
tens trepadeiras e estrelas no cabelo,
nua, és enorme e amarela
como o verão numa igreja de ouro

Quanto à banda sonora, temos ainda uma música dos Beatles que Pablo Neruda deu a conhecer ao carteiro e o presenteou, uma música que fala precisamente de carteiros e da espera ansiosa das cartas que eles trazem.





«Trouxe-te de Santiago uma prenda muito especial. "O hino oficial dos carteiros". Juntamente com estas palavras, a música de Mister Postman pelos Beatles expandiu-se pela sala (...) E quando o poeta lhe pôs a capa do disco nos braços, como se lhe confiasse a custódia de um recém-nascido, e começou a dançar...»




Mas não encontramos só poemas de Neruda no livro, temos um muito especial feito pelo próprio Mário, inspirado nas suas odes, como prova de gratidão pela carta e prenda que o poeta lhe envia de Paris, onde se encontrava como Embaixador do Chile.

Ode à neve sobre Neruda em Paris
Branda companheira de passos sigilosos,
abundante leite dos céus,
imaculada fachada da minha escola,
lençol de viajantes silenciosos 
que vão de pensão em pensão
com um retrato amarfanhado nos bolsos.
Ligeira e plural donzela,
asa de milhares de pombas,
lenço que se despede
de não sei bem o quê.
Por favor minha pálida bela,
cai amável sobre Neruda em Paris,
veste-o de gala com o teu alvo
traje de almirante,
e trá-lo na tua leve fragata
a este porto onde sentimos tanto a sua falta.


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segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Carteiro de Pablo Neruda: Livro vs Filme

Neste caso a sequência deveria ser invertida pois vi primeiro o filme, logo quando estreou no cinema e só depois li o livro e sinceramente já não me lembrava de quase nada, agora voltei a reler o livro e em seguida vi o filme.

O CARTEIRO DE PABLO NERUDA (Ardente Paciência)
de Antonio Skármeta
Editoral Teorema, 1996
Romance
172 páginas

O livro é um hino à poesia e as suas belas metáforas, à amizade improvável entre dois homens de mundos distintos e ao puro e arrebatador primeiro amor.

Mario Jiménez é um jovem que se torna carteiro em exclusivo do aclamado poeta chileno Pablo Neruda, a viver na Isla Negra e com o qual a pouco e pouco vai desenvolvendo uma amizade, A curiosidade pela poesia do poeta que vai lendo no seu livro "Odes Elementares" e pelo desejo de a compreender e ainda dele próprio a fazer dá origem aos primeiros contactos com diálogos enternecedores entre os dois, pela  ingenuidade do carteiro e o sentido de humor do poeta. Na descoberta da poesia conhece as metáforas que vão povoar todo o livro e que vai utilizar para expressar o seu amor à amada Beatriz e conquistá-la.

Com Pablo Neruda, Mario descobre não só a poesia, mas também a si próprio, cresce e desperta para uma vida com mais sentido e significado através desta amizade com o poeta, ao qual  mostrará sempre a sua admiração e gratidão mesmo quando não é mais o seu carteiro. Comemora efusivamente, com toda a aldeia o Prémio Nobel que lhe é atribuído em 1971 e nunca deixa de o recordar e evocar, É talvez uma admiração que acaba por tornar-se um pouco obsessiva devido ao deslumbramento que Neruda lhe provoca.

Um livro leve e simples, mas não simplista, com uma linguagem poética carregada de beleza e encanto que me enterneceu e fez sorrir do princípio quase até ao fim... só porque o final é aberto e as coisas ficam indefinidas. Gostei ainda de poder ficar a saber um pouco mais da vida de Neruda assim como da história do Chile mesmo que de forma breve.
Desgostei da quantidade de palavras desconhecidas e outras não tão desconhecidas mas utilizadas nos seus significados menos comuns, o que não impedindo a compreensão da narrativa traz um elemento de frequente quebra e estranheza.

*** (Gostei)



O CARTEIRO DE PABLO NERUDA 
Título original: Il Postino
de Michael Radford
com Massimo Troisi, Philippe Noiret, Linda Moretti, Maria Grazzia Cucinotta
Drama
1994





O filme vale essencalmente pelas excelentes interpretações dos dois protagonistas, de destacar a de Massimo Troisi que faz de Mario pela forma como consegue transmitir a essência da personagem em toda a sua ingenuidade, pureza e espontaneidade. E pelas cenas de conversa e interação com Pablo Neruda.

Sendo um filme baseado no romance e não uma adaptação tem claras diferenças e rupturas em vários aspectos da narrativa. O período de espaço e tempo em que se passa a história diferem, o livro é um registo factual de determinada época chilena enquanto que o filme é pura ficção pois Pablo Neruda nunca sequer esteve exilado em Itália. Já a personagem principal também é bastante diferente, o Mario Jiménez do livro tem 18 anos e o fulgor e vontade de viver próprio da idade enquanto o Mario Ruoppolo do filme tem cerca de 30 anos e está cansado de ser homem. O fio condutor do livro foi mantido mas só até certo ponto pois a partir de determinada altura o rumo do filme é bem diferente da história do livro.

Preferi sem sombra de dúvidas o livro ao filme, pelo maior desenvolvimento e densidade da história e pela sua verosimilhança com a realidade histórica. No entanto quando imaginar o Mario, carteiro de Pablo Neruda será sempre o Massimo Troisi, que o encarnou na perfeição, só que com menos 20 anos 

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Marcador de livros origami






Um marcador simples de origami para não perdermos o fio às páginas das nossas leituras e marcá-las sempre com o amor que temos aos livros.


Rápido de fazer precisam apenas de metade de um pequeno rectângulo de papel origami que também poderá ser de outro tipo, se preferirem e depois é só dobrar e dobrar correctamente até fazerem o coração que vai encaixar nos cantos das páginas. 



http://howaboutorange.blogspot.pt/2013/01/heart-shaped-page-marker-origami.html

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Há Palavras que Nos Beijam

A propósito do Dia Internacional do Beijo, comemorado dia 13 e porque muitas vezes este pode não ser assim tão literal, mas mais metafórico e porque podem existir muitas formas de sermos "beijados", fica o poema de Alexandre O'Neill...


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill
No Reino da Dinamarca

sábado, 8 de abril de 2017

O Meu Livro Infantil Preferido


Dia 2 de Abril comemorou-se o Dia Internacional do Livro Infantil e o meu preferido é sem sombra de dúvidas "O Principezinho" de Antoine de Saint-Exupéry. Tenho duas versões. o livro comum oferecido, se não me falha a memória, no meu aniversário de 10 anos por um amiguinho e mais recentemente comprei O Grande Livro Pop-Up. 

É um livro intemporal talvez até mais apropriado para os mais crescidos com grandes verdades ditas pela boca de uma criança ou melhor de um Príncipe que decide deixar o seu planeta e partir à descoberta do Mundo que o rodeia e nos vai relembrando ao longo dessa aventura o que é essencial na vida, mas tantas vezes esquecido.



(...) Ando à procura de amigos. O que é que "estar preso" quer dizer?
— É uma coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. — Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
— Laços?
— Sim, laços - disse a raposa. — Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és  senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual  a outras cem mil raposas. mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo.

— Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada: é o preço d felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo , a pô-lo bonito...

(...) Vou contar-te o tal segredo. é muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos... (...) 
— Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante. (...)
— Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. — Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável  para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...
E é por isto que eu gosto tanto deste livro... é de uma simplicidade inspiradora para pessoas de qualquer idade, uma lição de vida pelos olhos de uma criança e a que a cada leitura ou releitura se podem retirar significados diferentes.




domingo, 2 de abril de 2017

Abril com Livros no Ecrã


Durante o próximo mês de Abril vou finalmente juntar duas das minhas paixões aqui pelo blog, a literatura e o cinema e vou ler, não só mas maioritariamente, livros com adaptações cinematográficas.
Já há algum tempo que andava inclusivé para criar uma rúbrica em que fizesse o paralelo e/ou comparação entre o livro e o filme e agora surgiu o pretexto ideal para o arranque.

O blog Mente Literária criou o projecto Livros no Ecrã  (#livrosnoecra) que consiste em ler livros que foram adaptados a filmes ou séries e ver a respectiva adaptação para depois partilhar a opinião e impressão da sua proximidade ou não e da nossa preferência por um ou outro.

Com várias hipóteses na estante mas pouco tempo acabei por escolher apenas dois livros vs filmes, um bastante antigo tanto o livro como o filme que serão ambos "releituras" e outro mais recente mas também já com alguns aninhos, cujo filme vi quando estreou mas o livro só agora vou lê-lo.
O Carteiro de Pablo Neruda
Livro de António Skármeta (Ardente Paciencia): 1986 - Ed. Portuguesa 1996 vs Filme O Carteiro de Pablo Neruda (Títilo original: Il Postino) de 1994 realizado por Michael Radford com Massimo Troisi, Philippe Noiret e Maria Grazia Cucinotta
Revolutionary Road
Livro de Richard Yates: 1961 - Ed. Portuguesa 2009 vs Filme Revolutionary Road de 2008 realizado por Sam Mendes com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet 

#livrosnoecra